terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

ACTUALIZAÇÃO DO CLERO DAS DIOCESES DO SUL 

Evangelizar num mundo em mudança 

       O clero das Dioceses de Évora, Beja e Algarve, reunido no Hotel Júpiter, Praia da Rocha, Portimão, nas Jornadas de Actualização do Clero, promovidas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, nos dias 27 a 30 de Janeiro de 2014, subordinadas ao Tema:

Evangelizar num mundo em mudança, em ambiente de recolhimento, estudo e convívio, com a colaboração de vários especialistas, partilham as seguintes conclusões: 

1. Vivemos num país onde cerca de 80% da população se considera católica mas onde tem crescido o fenómeno da desfiliação religiosa que conduz a uma situação de “não pertença” abrangendo crentes e não crentes. Há, ao mesmo tempo, uma erosão da identidade católica e a privatização da fé, que conduz à falta de impacto da fé católica no tecido social, devida, em grande parte ao fenómeno da mobilidade e à dificuldade que os que professam a fé católica sentem em se afirmar, depois que a fé deixou de se transmitir por reprodução familiar e as estruturas de enraizamento sofreram alterações.

 2. A sociedade urbana, pós-industrial, criou novos quadros de sociabilidade caracterizados por relações mais baseadas nas escolhas pessoais, na autonomização e pluralização, e não tanto na família ou no lugar. As trajectórias de vida e os itinerários são hoje mais pessoais e a presença da Igreja tem que ter em conta esta diferenciação.

3. A mudança que está a acontecer indica-nos que há algo de que nos estamos a despedir e algo de novo que está a começar. Apesar de não sabermos ainda qual é este novo, devemos procurar saber para onde queremos caminhar. Há critérios de pertença à Igreja que poderão ser questionados face aos critérios do Reino de Deus instaurado por Jesus; há que respeitar a liberdade das pessoas com quem Deus pode fazer caminho; abrir-se à pluralidade e reconhecer diferentes itinerários pessoais. Uma pastoral de mera conservação ou simplesmente apologética opõe-se à necessária regeneração e criatividade que as mudanças actuais exigem.

4. Entre as novas formas de Evangelização, os participantes puderam contactar com o dinamismo dos cursos Alpha e das comunidades Neo-Catecumenais. Os primeiros não têm grande representação nas nossas dioceses, enquanto o Caminho Neo-Catecumenal está presente em várias paróquias das Dioceses do Sul. A partilha de experiências e o facto de ter sido instituído, na Diocese de Évora, um Seminário Redemptoris Mater para a missão “ad gentes”, demonstram que a fé vivida nestas comunidades é um sinal de que a Boa Nova de Jesus dá resposta às inquietações de um bom número de famílias que se dispõem a viver segundo o estilo de vida que lhe é proposto.

 5. A mudança epocal pode significar o fim de um certo tipo de cristianismo, mas não do cristianismo. O tempo actual é um tempo favorável para o anúncio do Evangelho. Há qualquer coisa que está a germinar e que nos convida a recomeçar face à afirmação da autonomia, da historicidade, da liberdade, da secularização, dos avanços da ciência e da técnica. No campo da fé cristã, “tudo começou com uma experiência” (E. Schillebeeckx) e, por isso, esta história precisa de ser narrada repensando, sentindo e reconstruindo. Não nos conformamos com o “sempre se tem feito assim” mas queremos ser audazes e criativos.
(Sara Rodrigues, escritora de Évora)
6. “A aceitação do primeiro anúncio, que convida a deixar-se amar por Deus e a amá- -Lo com o amor que Ele próprio nos comunica, provoca na vida das pessoas e nas suas acções uma primeira e fundamental reacção: desejar, procurar e levar a peito o bem dos outros” (EG 178). Na Evangelização é necessário apaixonar-se pelo humano, por tudo o que se passa na vida das pessoas, com o olhar de Deus. Reconhecemos que o Espírito de Jesus habita em cada coração humano e a “humanização” é o melhor terreno para conciliar a fé e a vida, a cultura e o Evangelho. Não podemos esquecer que o cristianismo é “encarnação”.